Cinema e Argumento

Os indicados ao The Actor Awards 2026

Com sete indicações, Uma Batalha Após a Outra se torna o filme mais indicado na história do The Actor Awards.

Aconteceu o esperado, mas não deixa de ser frustrante: o Screen Actors Guild Awards — agora renomeado The Actor Awards — decidiu ignorar todas as atuações em língua não-inglesa desta temporada. É um dado que trabalha contra a premiação porque são muitos os títulos internacionais cotados por sindicatos, associações e outros prêmios. Como explicar, por exemplo, a ausência absoluta de Valor Sentimental, que tem quatro interpretações individuais reconhecidas por outros grupos? Ou, então, qualquer lembrança para O Agente SecretoFoi Apenas um Acidente, dois títulos facilmente dignos de figurarem na categoria de melhor elenco?

Não é de hoje que o The Actor Awards pretere interpretações celebradas como a de Isabelle Huppert em Elle ou a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui. Acontece que todas as premiações passam por um assumido processo de internacionalização, então, das duas uma: ou o The Actor Awards precisa urgentemente de uma reformulação para não ficar parado no tempo ou deve assumir um critério de seleção que seja restrito a interpretações em língua-inglesa. Do jeito que está, fica ruim para a imagem do prestigiado sindicato de atores.

Com tantos desfalques, os substitutos acabam não sendo escolhas necessariamente fora da curva (caso de Emma Stone, lembrada na categoria de melhor atriz pelo pueril Bugonia) ou de grande influência para a temporada (acho difícil que Miles Caton em ator coadjuvante por Pecadores seja uma tendência a ser seguida daqui para a frente). Se há algo que nós, como brasileiros, podemos comemorar é que, com a ausência de Wagner Moura em melhor ator por O Agente Secreto, os votantes optaram por Jesse Plemons (Bugonia). A notícia é boa porque estancou o crescimento de Joel Edgerton (Sonhos de Trem), que vinha figurando como favorito para emplacar uma vaga que ainda está em aberto e que, eventualmente, poderia prejudicar as chances de Wagner.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Missão: Impossível — O Acerto Final
Pecadores

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Jacob Elordi (Frankenstein)
Miles Caton (Pecadores)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Landman
The Diplomat
The Pitt
Severance
The White Lotus

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
The Studio
Only Murders in the Building

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
Andor
Landman
The Last of Us
Stranger Things
Round 6

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Aime Lou Wood (The White Lotus)
Britt Lower (Severance)
Keri Russell (The Diplomat)
Parker Posey (The White Lotus)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Gary Oldman (Slow Horses)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (The Studio)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kathryn Hahn (The Studio)
Kristen Wiig (Palm Royale)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Ike Barinholtz (The Studio)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Christine Tremarco (Adolescência)
Claire Danes (O Monstro em Mim)
Erin Doherty (Adolescência)
Michelle Williams (Dying for Sex)
Sarah Snook (All Her Fault)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monster: The Ed Gein Story)

Jason Bateman (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Owen Cooper (Adolescência)
Stephen Graham (Adolescência)

Rapidamente: “Avatar: Fogo e Cinzas”, “O Filho de Mil Homens”, “Sorry, Baby” e “Wicked: Parte 2”

Eva Victor dirige, escreve e protagoniza Sorry, Baby.

AVATAR: FOGO E CINZAS (Avatar: Fire and Ash, 2025, de James Cameron): Ninguém duvida de que Avatar marcou época e promoveu inúmeras revoluções tecnológicas. Contudo, passados 16 anos desde o lançamento do primeiro filme, a impressão é de que, para o bem e para o mal, estamos falando as mesmas coisas sobre a franquia. Trata-se de algo positivo considerando a verve sempre inquieta de Cameron para criar os grandes espetáculos que hoje Hollywood parece incapaz de produzir, mas também de algo negativo, visto que roteiro nunca foi o forte do diretor — e tanto tempo dedicado a um mesmo universo só reforça essa tese. Em termos de história propriamente dita, as quase dez horas somadas de Avatar soam redundantes, muito mais agora em Fogo e Cinzas, que, por ser o terceiro capítulo, invariavelmente sofre com a ausência de novas ideias. É exaustivo, por exemplo, que tenhamos passado quase duas décadas com um antagonista — o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang — perseguindo o herói Jake Sully (Sam Worthington) de todos os jeitos possíveis, quando ele poderia ter facilmente saído de cena no segundo filme. Ao mesmo tempo em que introduz algumas novidades, como a entrada de outra vilã que traz uma ótima nuance para o mundo dos Na’vi, Fogo e Cinzas segue repetindo os discursos anticolonialistas já tão solidificados nos longas anteriores, assim como somente amplia a escala de sequências de ação muito similares entre os três volumes da saga. Nunca vi nenhum Avatar em casa, apenas nas salas de cinema, o que me deixa com a pulga atrás da orelha: será que, à parte a grandiosidade técnica e estética que vemos na tela grande, a trilogia formada até aqui sustenta parte de sua magia fora no sofá de casa? Ao contrário de outros trabalhos de Cameron, Avatar não me estimula tanto a uma revisão. Mau sinal?

O FILHO DE MIL HOMENS (idem, 2025, de Daniel Rezende): Outrora exímio montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, o paulista Daniel Rezende agora vem se firmando como um dos diretores brasileiros mais inspirados em atividade. Da irreverência de Bingo: O Rei das Manhãs à sofisticada doçura das duas adaptações de Turma da Mônica, ele navega em diferentes gêneros com o mesmo interesse e afinco. Ele não escapa à regra com O Filho de Mil Homens, em que se lança na complicada missão de levar às telas a literatura bela e poética de Valter Hugo Mãe. Falo em desafio porque a narrativa do autor é muito particular, seja na forma ou no conteúdo, e traduzir em imagens suas reticentes reflexões exige grande sensibilidade. Pois Daniel Rezende acerta outra vez, construindo um longa reverente à obra original, mas, ao mesmo tempo, livre para fazer suas próprias escolhas, inclusive do ponto de vista estético, já que esse se trata de seu trabalho mais apurado tecnicamente. Apesar de começar centrado no calado pescador vivido por Rodrigo Santoro, O Filho de Mil Homens se ramifica em outros personagens com o intuito de, eventualmente, entrelaçá-los e, assim, falar sobre a vida de figuras vistas aos olhos da sociedade como desajustadas, pecaminosas ou problemáticas. Em que pese os dramas genuínos e palpáveis de cada um deles, é a partir do momento em que suas histórias se cruzam que o filme fica ainda mais bonito, afinal, a generosidade é uma das maiores qualidades que qualquer ser humano pode ter hoje em dia. No acolhimento e na compreensão, o longa acentua a delicadeza do texto de Valter Hugo Mãe, e o faz sem ceder a convenções comerciais, evitando que o longa, produzido originalmente pela Netflix, flerte com mensagens rasteiras de autoajuda. O Filho de Mil Homens é bonito de ver e de sentir, além de acenar a todo momento para a literatura com os pés firmes no cinema.

SORRY, BABY (idem, 2025, de Eva Victor): A atriz, diretora e roteirista Eva Victor faz pelo menos duas coisas milagrosas em Sorry, Baby. A primeira é conseguir navegar nas diferentes fases de um trauma profundo com sobriedade, economia e até mesmo humor, sem perder de vista o pulso de uma história encenada em diferentes anos na vida da protagonista. Já a segunda é se despir completamente de vaidades para nunca fazer de seu trabalho uma egotrip. Não há deslumbre com as inúmeras diferentes possibilidades da história, sejam elas dramáticas ou cômicas. Tudo está a favor do filme, não do umbigo de sua realizadora. É um feito e tanto para uma cineasta que entrega o seu primeiro longa-metragem e que, a cada minuto dele, prova seu lugar de fala e a maturidade envolvida na construção do roteiro. Gosto, particularmente, da concepção da protagonista, uma acadêmica com senso de humor muito próprio e com plena consciência de que ela não tem as respostas certas para lidar com o que lhe assombra — e será mesmo que elas existem em experiências traumáticas? Aí está outro aspecto fascinante de Sorry, Baby: por meio de Agnes, Eva Victor mostra que cada história é uma história e que, nesta vida, nós administramos as dores a partir do que temos de repertórios ou (in)capacidades. Nada falta ou sobra também em termos de interpretação, visto que é fácil nos solidarizarmos com Agnes e ficarmos do seu lado seja qual for a sua reação diante do que lhe aconteceu.  Concentrando-se no peso do dia-a-dia, assim como nos momentos e nas relações que revigoram o passar do tempo, o filme conversa com o espectador da forma mais orgânica possível, o que só enfatiza a grata surpresa que é conhecer uma contadora de histórias tão sagaz e sensível.

WICKED: PARTE 2 (Wicked: For Good, 2025, de Jon M. Chu): Os aficionados pelo espetáculo original defendem a tese de que, nos palcos, Wicked já tem um segundo ato menos interessante do que o primeiro e que, portanto, não é nenhuma surpresa o fato da versão cinematográfica também ficar aquém do esperado. Bobagem. Adaptações também servem para propor novos olhares e leituras, assim como para mitigar escolhas não tão bem sucedidas. O que falta mesmo a Wicked é um diretor inspirado. A primeira parte, levada às telas com a mesma criatividade técnica e artística que qualquer outra aventura banalíssima da Marvel ou da DC, conseguia ser um entretenimento agradável muito em função de Cynthia Erivo e Ariana Grande, cujo frescor elevava o resultado junto às boas canções, culminando na clássica “Defying Gravity”. Por outro lado, Wicked: Parte 2, rodado simultaneamente com o primeiro filme, apenas deixa evidente a falta de um bom contador de histórias atrás das câmeras. Ao ter comandado os dois longas em um mesmo período, Jon M. Chu de fato concebe a parte 2 como apenas uma extensão da parte 1, sem elaborar absolutamente nada de novo. Não há um elemento ou uma identidade que dê qualquer tipo de vida própria à continuação. Nem mesmo a dupla protagonista, antes tão cintilante, consegue dar algum brilho ao material. De fato, a história decai na reta final, tanto do ponto de vista narrativo quanto musical, e o ritmo oscila entre o arrastado e acelerado, mas, quando os envolvidos não se esforçam para entregar algo minimamente novo, não há mesmo o que ser feito, muito menos quando decisões mercadológicas se impõem e já sugerem a produção de novas obras ambientadas no universo de Wicked.

 

Os indicados ao Globo de Ouro 2026

O Agente Secreto coloca novamente o Brasil na disputa pelo Globo de Ouro.

Nós, brasileiros, já estamos mal acostumados: pelo segundo ano consecutivo, marcamos presença entre os indicados do Globo de Ouro, desta vez, com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. A premiação apresentou hoje (08) a lista que traz o longa-metragem concorrendo nas categorias de melhor filme de drama, melhor ator (Wagner Moura) e melhor filme de língua não-inglesa, feito ainda maior que o de Ainda Estou Aqui no ano passado — o que, com certeza, também é fruto da trajetória exitosa do filme de Walter Salles. Ao que tudo indica, Wagner é favorito em sua categoria, mas isso é assunto para o início do ano que vem, quando, no dia 11 de janeiro, conheceremos os vencedores. Por ora, seguem abaixo algumas avaliações preliminares sobre os indicados:

– O Globo de Ouro segue de parabéns: com a mudança no corpo de votantes — agora muito mais internacional e plural — as indicações de gosto duvidoso, que já haviam transformado a premiação em motivo de chacota, ficaram fora do radar. Ótima notícia.

– Parte dessa mudança está perfeitamente representada na categoria de melhor filme de drama, composta por três filmes de língua não-inglesa: O Agente Secreto, Foi Apenas Um Acidente e Valor Sentimental. Agora sim a imprensa estrangeira em Hollywood se faz ouvida.

– O apreço pelos longas em língua não-inglesa também mostra o quanto 2025 foi um ano menos inspirado para Hollywood. Afinal, como explicar tanto amor para Frankenstein. Gosto do filme de Guillermo Del Toro, mas é inexplicável, por exemplo, a indicação de Oscar Isaac a melhor ator.

 – O cinemão comercial corre com as pernas fracas na temporada. É o caso de Wicked, outrora um hit inclusive nos prêmios, teve quatro indicações, mas não chegou entre os indicados a melhor filme de comédia/musical. A ausência é expressiva porque o Globo de Ouro sempre foi apaixonado por musicais, sejam eles bons de verdade ou apenas medianos.

– E o que dizer de Avatar: Fogo e Cinzas, indicado à categoria de Conquista Cinematográfica e Bilheteria sem nem ter estreado ainda? A franquia de James Cameron é outra que perdeu a musculatura: antes premiada pelo Globo de Ouro como melhor filme, direção e trilha sonora com o primeiro capítulo, agora está reduzida apenas a uma indicação duvidosa.

– Entre as interpretações, uma indicação em especial me alegra: a de Julia Roberts como melhor atriz por Depois da Caçada. Ela está maravilhosa e deveria ser lembrança garantida na temporada se público e crítica não tivessem implicado com este trabalho de Luca Guadagnino.

– Se houve movimento para que Amy Madigan fosse reconhecida com uma indicação de melhor atriz coadjuvante pelo terror A Hora do Mal, o mesmo entusiasmo poderia ter sido direcionado à ótima Sally Hawkins entre as protagonistas com Faça Ela Voltar.

– Infelizmente, a concorrência é pesada para o Brasil em melhor filme de língua não-inglesa, começando por Valor Sentimental, que concorre em nada menos do que oito categorias. Já Foi Apenas Um Acidente tem quatro, mas figura em melhor direção e roteiro, categorias que o filme de Kleber Mendonça Filho não conseguiu emplacar.

Confira abaixo a lista de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA
O Agente Secreto
Foi Apenas Um Acidente
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Uma Batalha Após a Outra
Blue Moon
Bugonia
Marty Supreme
No Other Choice
Nouvelle Vague

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Guillermo Del Toro (Frankenstein)
Jafar Panahi (Foi Apenas Um Acidente)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA
Eva Victor (Sorry, Baby)
Jennifer Lawrence (Morra, Amor)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Julia Roberts (Depois da Caçada)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Tessa Thompson (Hedda)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Amanda Seyfried (The Testament of Ann Lee)
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Cynthia Erivo (Wicked: Parte 2)
Emma Stone (Bugonia)
Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA
Dwayne Johnson (Coração de Lutador: The Smashing Machine)
Jeremy Allen White (Springsteen: Salve-Me do Desconhecido)
Joel Edgerton (Sonhos de Trem)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Oscar Isaac (Frankenstein)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Ethan Hawke (Blue Moon)
George Clooney (Jay Kelly)
Jesse Plemons (Bugonia)
Lee Byung Hun (No Other Choice)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)

Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Emily Blunt (Coração de Lutador: The Smashing Machine)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Sandler (Jay Kelly)
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ROTEIRO
Uma Batalha Após a Outra
Foi Apenas Um Acidente
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas Um Acidente (França)
No Other Choice (Coreia do Sul)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito
Elio
Guerreiras do K-Pop
Little Amélie or the Character of Rain
Zootopia 2

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
F1 – O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
Sirāt

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dream as One” (Avatar: Fogo e Cinzas)
“The Girl in the Bubble” (Wicked: Parte 2)
“Golden” (Guerreiras do K- Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“No Place Like Home” (Wicked: Parte 2)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA
Avatar: Fogo e Cinzas
F1 – O Filme
Guerreiras do K-Pop
A Hora do Mal
Missão: Impossível – O Acerto Final
Pecadores
Zootopia 2
Wicked: Parte 2

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
The Diplomat
The Pitt
Pluribus
Ruptura
Slow Horses
The White Lotus

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
Nobody Wants This
Only Murders in the Building
The Studio

MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME
Adolescência
All Her Fault
Black Mirror
O Monstro em Mim
Morrendo por Sexo
A Namorada Ideal

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Bella Ramsey (The Last of Us)
Britt Lower (Ruptura)
Helen Mirren (MobLand)
Kathy Bates (Matlock)
Keri Russell (The Diplomat)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Adam Scott (Ruptura)
Diego Luna (Andor)
Gary Oldman (Slow Horses)
Mark Ruffalo (Task)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Natasha Lyonne (Poker Face)
Selena Gomez (Only Murders in the Building)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Glen Powell (Chad Powers)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Steve Martin (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Amanda Seyfried (Long Bright River)

Claire Danes (O Monstro em Mim)
Michelle Williams (Morrendo por Sexo)
Rashida Jones (Black Mirror)

Sarah Snook (All Her Fault)
Robin Wright (A Namorada Ideal)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monstro: A História de Ed Gein)
Jacob Elordi (O Caminho Estreito para os Confins do Norte)
Jude Law (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Paul Giamatti (Black Mirror)
Stephen Graham (Adolescência)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
Aimee Lou Wood (The White Lotus)
Carrie Coon (The White Lotus)
Catherine O’Hara (The Studio)
Erin Doherty (Adolescência)
Hannah Einbinder (Hacks)
Parker Posey (The White Lotus)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
Ashley Walters (Adolescência)

Billy Crudup (The Morning Show)
Jason Isaacs (The White Lotus)
Owen Cooper (Adolescência)
Tramell Tillman (Ruptura)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP
Bill Maher (Bill Maher: Is Anyone Else Seeing This?)
Brett Goldstein (Brett Goldstein: The Second Best Night of Your Life)
Kevin Hart (Kevin Hart: Acting My Age)
Kumail Nanjiani (Kumail Nanjiani: Night Thoughts)
Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality)
Sarah Silverman (Sarah Silverman: Postmortem)

Em “Morra, Amor”, depressão, loucura e maternidade são vistas pela ótica sempre inquietante de Lynne Ramsay

I’m stuck between wanting to do something and not wanting to do anything at all.

Direção: Lynne Ramsay

Roteiro: Alice Birch, Enda Walsh e Lynne Ramsay, baseado no romance homônimo de Ariana Harwicz

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, Nick Nolte, LaKeith Stanfield, Gabrielle Rose, Clare Coulter, Saylor McPherson, Kasmere Trice Stanfield, Sarah Lind, Zoe Cross, Luke Camilleri

Die My Love, Reino Unido/Canadá/Estados Unidos, 2025, Drama, 119 minutos

Sinopse: Grace (Jennifer Lawrence) acaba de ser mãe pela primeira vez. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda com a família para a antiga casa de infância do marido (Robert Pattinson), numa zona rural de Montana. Aos poucos, começa a enfrentar sentimentos de isolamento e sofrimento psicológico. Com a saúde mental em declínio no período de pós-parto, a realidade vai levando o casamento a um território inquietante e imprevisível.

Morra, Amor nos apresenta a Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) quando ambos chegam à casa que será seu novo lar. Idílico, ensolarado e silencioso, o cenário é perfeito para duas pessoas em busca de autorrealizações. Enquanto ele quer gravar um álbum, ela tem planos de escrever um romance. Mais para frente, o filme revela que a casa em questão pertencia ao tio falecido de Jackson — um sujeito sempre tido como feliz pela família e que veio a óbito porque cometeu suicídio. A triste dicotomia é notada apenas por Grace, e isso não é mera coincidência. Talvez ela reconheça nessa história algo do seu íntimo, não por presságios, agouros ou fantasmas, mas pela sensação de ver o seu próprio eu desaparecer na desesperadora imensidão do nada.

Perita em capturar o que existe de mais incômodo em estados de espírito muito particulares, a diretora Lynne Ramsay volta a pisar no terreno da maternidade após o assombroso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Com Morra, Amor ela novamente tem um material literário em mãos, no caso, o romance homônimo publicado por Ariana Harwicz em 2012. As duas adaptações de Ramsay, contudo, não se sobrepõem: ao passo em que Precisamos Falar Sobre o Kevin desvendava a protagonista por meio da relação disfuncional estabelecida entre ela e um filho — para dizer o mínimo — problemático, Morra, Amor acompanha o íntimo de uma mulher que, antes, durante e depois do nascimento do bebê, permanece em conflito consigo e com o mundo. Não há problema algum de conexão com o filho, diz Grace, a certa altura. O inferno, na verdade, é todo o resto.

Quando o silêncio bucólico dá lugar ao vazio, Morra, Amor passa a desconstruir a vida a dois. Há uma desconexão entre o casal, da maneira com que ambos passam a ter apetites muito distintos por sexo à falta de assunto ou interesse em estabelecer uma conversa banal por telefone quando um dos dois viaja a trabalho. O incômodo tão característico da filmografia de Lynne Ramsay toma forma com a estratégia da repetição, emulando, em situações corriqueiras, o desgaste emocional especialmente da protagonista. É de enlouquecer, por exemplo, que ela precise lidar com o cachorro recém adotado por Jackson. O animal tem papel importante porque representa o total descaso da figura masculina com o que acontece naquela casa. Afinal, o cão chega àquele ambiente sem o consentimento de Grace e vira mais uma “tarefa” para ela, já que Jackson pouco contribui para as tarefas domésticas.

O acúmulo dessas situações amplifica os dilemas de uma mulher em gradativa desintegração e cujo desespero está em não conseguir diagnosticar o que tanto lhe desconstrói. No roteiro escrito por Ramsay em parceria com Alice Birch e Enda Walsh, ecoam, claro, as inseguranças inerentes à maternidade — uma mãe de verdade precisa fazer ela mesma o bolo de aniversário do filho? — a ponto de elas se tornarem pequenas paranoias, como quando um choro inexistente do bebê soa bastante real mesmo no mais absoluto silêncio. Para completar, os alienados ou bem intencionados à volta também acabam contribuindo para a profunda depressão de Grace, afinal, a depressão costuma ser exatamente assim: incompreendida, subestimada ou vista apenas como falta de esforço, quando não passível de ser resolvida com uma aula de ioga e uma ida ao cabeleireiro.

Lynne Ramsay emoldura a trama com um aspecto de imagem 1:1 (o famoso formato “quadrado”), escolha que, por óbvio, “comprime” os sentimentos de uma personagem já presa entre a vontade de fazer alguma coisa da vida e não conseguir fazer absolutamente nada. Ninguém olha para Grace com compreensão — e muito menos consegue lhe dar um abraço ou algo do gênero. O resultado? Ela começa a se tornar um perigo para si, mais do que para os outros, tentando, no subconsciente, provar sua existência através da autodestruição, inclusive física. Sem flertar com o mero sadismo, a diretora filma tal processo com crueza, ainda que daí venha a sua fama de cineasta “controversa” ou que “divide opiniões”, classificações usadas para prevenir o público, mas que, neste mundo estranhamente comportado de hoje em dia, são necessárias e estimulantes.

Entre os produtores de Morra, Amor, está ninguém menos do que Martin Scorsese, que, informações dão conta, foi o responsável por escolher Jennifer Lawrence para o papel principal após assistir à sua performance em Mãe!. Gosto dessa informação porque ela valoriza uma fase da carreira de Lawrence que vem sendo subavaliada por público e crítica. Ainda que Lawrence tenha sido multipremiada mundo afora pelos filmes duvidosos de David O. Russell, suas escolhas mais interessantes e equilibradas se deram após a superexposição ao lado do diretor. Além de Mãe!, há o delicado Passagem, por exemplo, assim como o divertido Que Horas Eu Te Pego?, onde ela exercita sua verve cômica. Morra, Amor se soma aos ótimos projetos que a atriz vem escolhendo em um recorte mais desacelerado de sua filmografia. Destemida, ela brilha em cena ao, ironicamente, dar vida a alguém que está se apagando. Não é para todo mundo, como já foi possível constatar nas reações mistas ao filme desde a estreia mundial no último Festival de Cannes. Entretanto, mais uma vez, fico ao lado de Lynne Ramsay e seus incômodos, sempre potencializados por atores escolhidos com grande precisão.

Rapidamente: “Casa de Dinamite”, “Os Roses”, “Salve Rosa” e “A Vizinha Perfeita”

A Vizinha Perfeita venceu o prêmio de melhor direção em documentário no último Festival de Sundance e o Critics’ Choice Awards em cinco categorias do gênero.

CASA DE DINAMITE (A House of Dynamite, 2025, de Kathryn Bigelow): O poeta americano W. H. Auden escreveu que o prazer é o guia crítico menos falível de todos, o que explica minha relação com Casa de Dinamite, um filme de várias fragilidades, mas que, em última instância, conseguiu me deixar grudado nele do início ao fim. Trata-se do mais novo trabalho de Kathryn Bigelow cujo cinema, no geral, nunca chegou a me causar maiores comoções, e que agora assina a sua obra mais comercial, mesmo sem abandonar o estilo que lhe rendeu, inclusive, o primeiro Oscar de direção entregue a uma mulher com Guerra ao Terror. A diferença é que as discussões geopolíticas dão espaço muito mais amplo ao thriller e ao suspense, o que serve bem ao resultado de Casa de Dinamite, longa estruturado em três capítulos que mostram diferentes perspectivas para um mesmo espaço de tempo — no caso, os curtíssimos minutos quando o serviço de inteligência dos Estados Unidos percebe que está prestes a sofrer um misterioso ataque nuclear. Ninguém sabe de onde vem ou quem exatamente ordenou o movimento, restando apenas uma contagem regressiva das mais nervosas em que autoridades precisam tomar uma decisão, seja ela qual for. O primeiro ato é magnífico na construção da tensão, enquanto o segundo se sai admiravelmente bem ao manter a tração diante da reencenação dos fatos — e é aí que Bigelow imprime com destreza seu olhar quase documental em prol da imersão. Já o terceiro, centrado no personagem de Idris Elba, falha em praticamente todos os aspectos, da conclusão que não tem a devida pungência na falta proposital de respostas à própria ausência de atmosfera, onde fica evidente, por exemplo, o trabalho surpreendentemente preguiçoso de Volker Bertelmann em uma trilha sonora que parece apenas um copia-e-cola de seu trabalho em Conclave. Ainda assim, tal frustração não foi o suficiente para abalar a minha impressão positiva de Casa de Dinamite, que acompanhei com bastante interesse — e, portanto, com o guia crítico menos falível proposto por W.H. Auden.

OS ROSES: ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE (The Roses, 2025, de Jay Roach): Com Olivia Colman e Benedict Cumberbatch nos papéis principais, Os Roses: Até Que a Morte os Separa é uma refilmagem de A Guerra dos Roses, comédia de 1989 estrelada por Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, que, por sua vez, é baseado no romance homônimo de Warren Adler. Há atualizações que justificam esse retorno ao clássico, vingativo e venenoso embate de um casal diante de um complicado divórcio, como o enfoque dado à mediocridade e à masculinidade frágil de um pai de família que, repentinamente, deixa de ser o provedor da família e se vê às voltas com o desmoronamento da própria carreira. Já a mulher, antes uma cozinheira que abandonou a profissão para cuidar dos filhos, volta para a gastronomia com imenso êxito e sucesso, o que passa a acentuar uma série de conflitos no então pacífico matrimônio. Atento aos novos tempos, o roteiro escrito por Tony McNamara (A Favorita, Pobres Criaturas) transita com bom humor pelos meandros de um mundo em que os homens ainda têm imensa dificuldade em admitir fracassos e fragilidades — especialmente quando em contraste com gloriosos protagonismos femininos. Ao propor leituras como essa, Os Roses escapa de ser uma mera refilmagem caça-níquel, como já vemos aos montes no cinema norte-americano, e entrega divertidas observações sobre matrimônios que acabam ruindo mais por questões individuais de cada parceiro do que pelo casamento propriamente dito. Acontece que, tratando-se de um remake, é inevitável a expectativa em torno de como serão reproduzidos os elementos que consagraram a obra original, coisa que Os Roses até trabalha em seus materiais promocionais, mas falha em entregar na tela: a explosiva guerra do filme original e suprimida do título atual fica restrita a uma mínima fatia dos 121 minutos de duração e, quando entregue, soa como um clímax apressado, protocolar e pouco convincente mesmo dentro do espectro cômico construído até ali. O que era para ser o grande deleite de Os Roses acaba por ser, na verdade, uma inesperada frustração.  

SALVE ROSA (idem, 2025, de Susanna Lira): Comecei gostando do tom camp e artificial empregado a tudo — dos cenários perfeitinhos e coloridos em que Rosa (Klara Castanho) grava seus vídeos para a internet ao modo comercial de margarina com que Dora (Karine Teles) cria a filha, tudo parece perfeito demais para ser verdade, sinal desses nossos tempos cada vez mais obcecados com a aparência e com o olhar dos outros. A atmosfera se dissipa quando Salve Rosa revela a intenção de ser um The Act brasileiro, mas sem a mesma potência e criatividade da perturbadora minissérie estrelada por Joey King e Patricia Arquette. Não é apenas questão de propostas similares: na realidade, todo o desenvolvimento do roteiro escrito por Ângela Hirata Fabri dá a impressão de ser uma mera transposição da bem-sucedida produção estadunidense – que, por sua vez, adapta uma terrível história verídica. Ou seja, se você já viu The Act, automaticamente, você já viu Salve Rosa, cujo título, a certa altura, também já antecipa mais do que deveria para qualquer espectador atento. Outro problema é o filme estar tão empenhado em fazer uma denúncia, como se a exposição do problema central — no caso, os atos no mínimo criminosos de uma mãe que não quer perder os privilégios trazidos pela vida famosa da filha na internet – ditasse o funcionamento de tudo, seja ele do encadeamento dos fatos até o próprio tom das interpretações orbitantes às protagonistas. O terceiro ato, em particular, carimba a falta de sutilezas e de um olhar mais complexo para a confecção da dramaturgia. É nele que Salve Rosa, precisando dar vazão às catarses e resoluções inerentes a um thriller, corre rápido demais rumo à mensagem que deseja passar, sem se preocupar exatamente com a verossimilhança dos acontecimentos. A esta altura, Klara Castanho (vencedora do prêmio de melhor atriz no último Festival do Rio por sua performance) e Karine Teles estão meio que por elas próprias, carregando, cada uma à sua maneira, o interesse que, infelizmente, Salve Rosa desperta ao início, mas perde pouco a pouco ao longo do caminho.

A VIZINHA PERFEITA (The Perfect Neighbor, 2025, de Geeta Gandbhir): Ganhou o prêmio de melhor direção na mostra de documentários do último Festival de Sundance, além de ter vencido as categorias de melhor documentário, direção, montagem, documentário de arquivo e true crime da edição do Critics’ Choice Awards dedicada ao gênero. Todos os reconhecimentos são merecidos para este filme impactante de Geeta Gandbhir sobre o homicídio de Ajike Owens, morta pela vizinha Susan Loricz em 2023 após uma série de disputas envolvendo um grupo de crianças que brincava nas redondezas da vizinhança. Cerca de 90% do que se vê em A Vizinha Perfeita é constituído de câmeras acopladas aos uniformes dos policiais ao longo de todo o conflito, o que traz uma eficiência angustiante ao resultado, uma vez que acompanhamos todo o desenrolar dos fatos como se de fato estivéssemos em campo com as autoridades. Com o mínimo de interferência em cima dos acontecimentos, o documentário examina as controvérsias envolvendo a lei conhecida como “Stand Your Ground” nos Estados Unidos, que, basicamente, legitima ataques até mesmo letais caso seja comprovada a defesa do que se entende como território físico de cada pessoa. Obviamente, a lei é mais uma porta de entrada para a perpetuação do racismo sistêmico, já que estatísticas comprovam que a população negra sempre é a mais penalizada na aplicação dos efeitos da Stand Your Ground, principalmente em casos como o de Ajike Owens e Susan Loricz, sem provas concretas do crime, apenas a palavra de uma pessoa sobre o ocorrido. São questões que lançam luz sobre tantas outras definidoras da sociedade estadunidense — o porte de armas, a violência urbana, a desigualdade social — e que A Vizinha Perfeita conduz sem sensacionalismo, mesmo tendo um lado muito bem definido sobre toda a situação. Condenada a 25 anos de prisão, Susan Loricz sempre alegou inocência, mas conclusões de sobra podem ser tiradas a partir do documentário sobre como ela encapsula a maneira elástica e relapsa com que os Estados Unidos administram leis tão suscetíveis a relativizar o caos e a letalidade.